Linguagens e vertigens de mulher

Relógio Ansonia que foi do meu bisavô e que agora é meu. - Iatamyra Rocha
Relógio Ansonia que foi do meu bisavô e que agora é meu. – Iatamyra Rocha

Nos atos cotidianos às vezes me deparo a ouvir diálogos que ao meu ver são saídos do túnel do tempo em épocas da minha bisavó, no norte e nordeste do Brasil, século IX, tempo medido em relógios de parede Ansonia onde a mulher era também uma parede, e podia-se rabiscar e desenhar o que bem entendesse, ou metralha-la sem nenhuma reação ao não ser através da fé de que suas futuras gerações não passariam por torturas, tempos escravos dos tempos de antes, reproduzindo e se reproduzindo de forma uniforme e opressora para algumas mulheres cabisbaixas e com vergonhas herdadas da sua educação rígida nos moldes europeus, esquecendo-se que a folha no sexo foi pintada a sangue, e que esse sangue flui entre as pernas e incomoda só a quem não se deixar fluir nesses ciclos de renovações, os tempos da minha bisavó abriram caminho através dessas mulheres que se renovavam, e também esperavam num silêncio tecido e incisivo a cada ponto bordado na educação dos seus filhos, deixando ali impresso em toda folha seus sulcos de rios abraçando mares, e nesse abraçar o mundo entre as pernas, não cabe nenhum verso atravessado, tudo deve fluir e andar na correnteza oriunda de todos os tempos, mesmo enquanto contra marés em alguns momentos, eu não teria construído meu pensamento livre se não fosse essas mulheres que fluem em minhas veias, e nesse equilíbrio ainda em construção exerço na minha maternidade a continuação dessa liberdade, sabendo a fragilidade desse mundo tão confuso e época de valores invertidos, nas correrias dos tempos alguns pontos ficaram cegos ao equilíbrio das mães, e relaciono isso ao excesso e a falta de amor próprio, como um trem que não sabe ao certo sua força e velocidade, descarrilando, ficando em alguma curva estático, na escuridão.

Em que ponto do tempo seu pensamento se encontra? E nesse encontro, será que o tempo é o lugar onde esse novelo retrata de forma livre seu pensar? Como interligar seu pensamento construído, de forma a tornar ponte para alguns que ainda estão na estática de um tempo que não volta mais sem que isso possa parecer invasivo para algum olhar? Me faço essas perguntas quando me deparo na situação que comecei narrando acima, no inicio do texto, agora passo esse dialogo de duas mulheres, aparentemente de duas gerações diferentes, mas ambas com concordância de opiniões, as ouvi conversando enquanto estava no meu ato cotidiano de me exercitar numa pracinha perto de casa, eis o dialogo abaixo:

” — Disse a mulher mais madura:

– Eu disse a ele que se casasse com uma nordestina, ele foi arranjar essa no Rio Grande do Sul ! dizem que ela não cuida bem dele e da casa, não faz nada para ele, ele é que faz tudo, e o pior é que ele gosta e é muito apaixonado por ela, não entendo isso?

— Disse a mulher mais verde:

– Eu já mandei ele voltar para cá.”

Dizem que quem tem ouvido escuta o que quer, mais meu ouvido depura esse tipo de coisa, eu crio meu próprio antídoto para situações que em pleno século XXI não deveriam existir mais, ter que ouvir esse tipo de dialogo preconceituoso conta nós mulheres nordestinas, vindo da boca de nós mesmas, para mim é deprimente, não somos escravas de homem nenhum, não fomos educadas para servir a um senhor, e nem compradas num mercado de peças pré-fabricadas, muitas mulheres ainda não acordaram para isso, e em troca de amor(sexo), um homem para procriar, e prover, se submetem a escravidão dos seus próprios sentimentos, os nossos predicados não estão numa casa limpa e numa comidinha gostosa, mas sim na liberdade de escolher com quem compartilhar nossa vida, nossos momentos de amor, e nossos sonhos mais íntimos, é inadmissível que na mente de algumas mulheres ainda permaneçam grades de aversão contra si própria, isso é se depreciar, não vou dizer se equiparar com animais irracionais, porque animais são livres e equilibrados nos instintos, e se permitem até enquanto isso lhe causa algum prazer, pois essa é a liberdade da natureza, não acredito em prazer de hora marcada, cartas escolhidas, ensaios realizados ao pé da letra, essa perfeição de mulher é robótica, plástica, sem sabor, sem gozo, versos não devem ser atravessados, e sim sentidos no exercício da língua, e essa tradução requer tempo de se permitir, e nunca de ser permissiva.

– Iatamyra Rocha

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