Caminhos

A fumaça cobre o tempo, poeira desértica no nada absoluto, as palavras são a única fonte inesgotável da mais pura água no qual mato minha sede de vida, o tempo se esvai, só minha verdade enraízada mantém minha cabeça sobre meus ombros; a solidão muitas vezes é a chave que abre as portas do intelecto adormecido e negligenciado pela dureza da vida, me entrego a leitura e a escrita talvez como uma fuga, uma desculpa para as cobranças de um novo relacionamento, amores são essênciais mas não vitais e continuos, sou egoista e não quero partilhar minha solidão meu oásis de entrega total a mim mesma, meus ideais e a minha forma de ver o mundo com suas teias de possibilidades que unem a todos em um mesmo céu no qual eu pretendo ser mais uma sementinha que propaga a paz e o amor, então no meio da minha ilha existencial há vertentes do mais puro amor a se espalhar pelo mundo afora em palavras que acalento dentro de mim.

Vou contar uma história dessas cotidianas que passam por nós como vento em dias de muito calor; certa vez eu estava caminhando na areia da praia como ritual que fazia com dia e hora marcada e que hoje uma simples vesícula me impede de fazer [Pedrinha importuna]Gosto de caminhar bem próximo ao mar para que as ondas lambam meus pés e me acordem os passos; me encanta observar o mundo em seus detalhes a minha volta, noto um casal de idosos, ela com um imenso chapéu preto mas que não ofuscava sua beleza madura e serena, muito zelosa a todo instante dava forças em palavras de estímulo para que o companheiro de caminhada, um senhor de porte atlético e sorriso largo não desanimasse os passos, e ele tipo bonachão só respondia :

_ Meu bem, só estou devagar para que o tempo dure mais e eu possa caminhar ao seu lado por mais uns bons anos.

Mais ela não se dava por rogada e continuava com seus zelos e seus estímulos na caminhada que vez ou outra era substituído por ternos beijos e carinho nas costas do companheiro; olhei o casal e voltei alguns anos atrás quando em minha caminhada acompanhada por meu marido, hoje ex, fazia o mesmo e jurava que isso se repetiria em longos anos até nossa velhice, sem parar pra pensar que não é o zelo, o amor e o carinho que faz um casal ter uma eterna caminhada juntos, mas sim o respeito pelas escolhas; no decorrer da nossa vida passamos por vários obstáculos que nos fazem escolher o caminho, a hora e o destino, e uma vez escolhido não se pode voltar atrás e refazer aquele momento, sentimento, pulsar do coração, fiz minha escolha ao respeitar a escolha dele de sair de casa e iniciar uma nova família com uma paixão deixando um amor de vinte anos, confesso que acho ele muito corajoso pois muitas vezes desviei de paixões por respeito e amor a família que construimos juntos, hoje penso até que ponto eu estava certa de renunciar as minhas vontades em prol da instituição familiar e seus parâmetros da sociedade? Será que que hoje, se eu tivesse cedido as minhas paixões e vontade estaria caminhando sozinha? Até que ponto se pode renunciar a nós mesmos sem que essa escolha nos traga solidão no futuro? Não que eu hoje não esteja feliz com minha solidão, gosto do silêncio e da minha vida que eu mesmo posso escolher, mas não todo o tempo, tem àquelas horas em que falta um aconchego, um colo , uma palavra, um olhar e que não é substituído pelos dos filhos, amigos e parentes; hoje substituo esse oco com palavras a mim mesmas lançadas e espalhadas ao mundo, recorro as minhas leituras e meu escrever com minha alma toda em poesia anunciada, em idiossincrasia acalentada dentro do meu ninho particular, me sinto em eterno dilema como ter um novo amor sem perder minha  solidão e o silêncio que tanto amo? Como construir a vida ao lado de um outro alguém sem perder minha própria companhia ? São muitas interrogações que não encontro a resposta e enquanto isso só caminho deixando em cada passo um pouco das minhas águas ondulantes e um grande pedaço de mim arrancado do meu coração itinerante; quanto a aquele casal fofo que observei na praia, encontrei outro dia numa fila de cinema os reconheci pelo mesmo zelo dela com cuidado para que ele não perdesse os ingressos e o sorriso largo dele ao respondê-la :

_ Meu bem, não vou perder não deixaria escapar os minutos que passarei ao seu lado bem juntinho no escurinho.

E ela dessa vez respondeu :

_ Meu bem você sabe que preciso segurar sua mão e sentir seu abraço toda vez que uma cena do filme me assustar.

Caminhadas tatuam nossos passos na areia e mesmo se mudarmos de estrada eles continuam lá bem desenhados.

®IatamyraRocha

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